terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eike despreza siderúrgica e diz ganhar milhões com aluguel de terras no Açu


Apesar dos revezes das empresas X, que passam por forte desvalorização, e das seguidas desistências de grandes empreendimentos que pretendiam se instalar no Super Porto do Açu, o empresário Eike Batista ainda se mostra muito gabola e bastante falante, sem nem se procurar disfarçar seus tradicionais sintomas de megalomania, cada vez mais acentuados.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo ele despejou algumas novas e preciosas pérolas, dignas de enriquecer o nosso inesquecível Febeapa (Livro “O Festival de Besteiras que Assola o País”, de Stanislaw Ponte Preta - Sérgio Porto).

Só se for de sal...

1) “Alguém vai ter que fazer uma estátua para mim em algum lugar”.

“É o Brasil quem vai sofrer”

2) “Eu estou comprando as ações de volta. Se não me querem, eu me quero. Eu me gosto. Os fundos de pensão estrangeiros me compram e são meus sócios. E os fundos brasileiros, cadê? Alô, vocês estão perdendo 15%, 20% de taxa de retorno”. Participação do BNDESPar: “Tem e estão vindo tarde. É bom vir com mais. Se meus projetos não ficarem em pé, é o Brasil quem vai sofrer. Eu sou um grupo nacional e apoiá-los é o que um banco de fomento faz. E não é de graça”.

“Dane-se a siderúrgica”

3) “Projetos atrasam. A siderúrgica da Térnium era uma âncora inicial (Porto do Açu] e não veio ainda por falta de gás natural. Mas o Açu se transformou em um polo para a indústria "offshore". A Technip, a National Oilwell Warco, a Intermoore e a Subsea7 já estão colocando suas estruturas lá. Só esse pessoal paga R$ 100 milhões de aluguel, antes mesmo de o porto funcionar. Diante desse contexto, dane-se a siderúrgica”.

Só de sal

Na primeira frase, nota-se que falta bastante modéstia ao empresário, além de ter uma visão bastante distante entre a imagem que tem de si próprio, da imagem real que tem construído para a população. Principalmente aquela parcela que tem sido diretamente atingida pelos seus empreendimentos, como os moradores do 5º Distrito de São João da Barra, muitos deles expulsos das suas casas e propriedades rurais para, compulsoriamente, ceder espaço para o Grupo X, e há também os que heroicamente resistem, mas agora estão vendo a sua água e a sua terra serem salinizadas pelas obras de escavação do canal do estaleiro do Açu, realizadas de forma completamente diversa do que foi previsto no EIA/RIMA da UCN do Açu.

Não existe ironia nenhuma saber que, exatamente onde Eike está plantando seu principal empreendimento, a sua popularidade está bem à esquerda do zero. Caso a população local fosse consultada, uma estátua sua naquela região, só se fosse de sal...

Só venha a nós...

Se na primeira frase houve total escassez de modéstia, na segunda sobra atrevimento e uma arrogância assustadoramente reveladora. Além de pregar um exótico newonanismo financeiro na Bolsa de Valores, declarando que se não quiserem as suas ações ele compra de volta, por que se não o quiserem, ele se quer assim mesmo (olha que coisa doida). Ainda aproveitou para morder a mão de quem vem alimentando os seus sonhos mais ousados. Segundo ele, filho ingrato, se o governo não investir (já investiu fortunas) em seus negócios, o Brasil é que vai sofrer. E o que já investiu veio tarde e precisa investir mais.

Ou seja, utiliza dinheiro público, em terras desapropriadas pelo estado, e ainda reclama que é pouco... Como diria o povo da Baixada, “na cartilha de Eike é só venha a nós, ao vosso reino, nada”...

Desapropriações, a cereja do bolo

Mas a sua terceira frase foi de uma descarada falta de pudor de fazer corar frades de pedra, falando que o Açu está se transformando em um polo offshore, e citando empresas que estão se instalando lá para contar a pior das vantagens que já contou: “Só esse pessoal paga R$ 100 milhões de aluguel, antes mesmo de o porto funcionar. Diante desse contexto, dane-se a siderúrgica”.

Essa confissão pública do que todo mundo já sabia extraoficialmente, deixa claro que as desapropriações para instalação do Distrito Industrial do Porto do Açu foram a “cereja” do negócio, pois ele mesmo declara que uma poderosa siderúrgica “que se dane”, já que fatura só de aluguel, antes de mesmo de funcionar, gira em torno de uma fortuna de 100 milhões de reais anuais.

O detalhe é que as terras da região estão sendo desapropriadas pelo estado, e este só paga a bagatela de R$ 1,90 por metro quadrado e cede gratuitamente, e muito gentilmente, a galinha dos ovos de ouro para o empresário Eike Batista. Se a Justiça ouvisse o galo cantar e procurasse saber onde, ela realmente poderia ser feita, o próprio Eike, publicamente, já deu num bom parâmetro de quanto deveriam valer as indenizações. Bastaria calcular alguns anos de aluguel e dividir pelos metros quadrados ocupados pelas empresas citadas. Certamente os desapropriados reclamariam bem menos do que reclamam hoje, mas o mesmo não se poderia dizer do senhor Eike Batista que, certamente, reclamaria bem mais do que reclama hoje...